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O exercício que uma criança faz hoje pode deixar marcas na saúde mental de amanhã

Estudo acompanhou crianças e adolescentes por mais de três décadas e encontrou menor ocorrência de depressão na vida adulta entre aqueles que tinham melhor condicionamento cardiorrespiratório

Mandar uma criança correr, brincar, pedalar ou praticar esportes pode estar fazendo muito mais do que fortalecer seu coração e seus músculos. A aptidão física construída nos primeiros anos de vida pode estar relacionada também à saúde mental décadas mais tarde.

Um estudo australiano acompanhou crianças e adolescentes avaliados originalmente em 1985, quando tinham entre 7 e 15 anos. Naquela época, eles fizeram testes físicos bastante objetivos: correram 1,6 km, saltaram, tiveram a força das mãos medida e, em parte do grupo, realizaram teste em bicicleta ergométrica. 

Mais de três décadas depois, já com 36 a 49 anos, os pesquisadores voltaram a avaliar essas pessoas, desta vez investigando a ocorrência de depressão por meio de uma entrevista psiquiátrica padronizada. O acompanhamento médio foi de impressionantes 32,5 anos. 

O resultado mais interessante apareceu no condicionamento cardiorrespiratório, ou seja, na capacidade do coração, dos pulmões e dos músculos de sustentar um esforço físico.

Quanto melhor era esse condicionamento durante a infância e a adolescência, menor tendia a ser o risco de depressão posteriormente. A associação foi mais evidente entre as mulheres. Já força e potência muscular apresentaram resultados menos consistentes. 

Isso não significa que correr na infância seja uma “vacina contra a depressão”. Depressão é uma doença complexa, influenciada por genética, ambiente, experiências de vida e inúmeros fatores biológicos e sociais. E esse estudo encontrou uma associação, não provou que o melhor condicionamento físico tenha sido diretamente responsável pela menor ocorrência da doença. 

Mas existem explicações biologicamente interessantes. A atividade física pode melhorar o funcionamento das mitocôndrias, regular processos inflamatórios, estimular substâncias relacionadas à saúde dos neurônios, como o BDNF, e contribuir para uma resposta mais adequada ao estresse. Crianças fisicamente ativas também podem desenvolver autoestima, vínculos sociais e experiências positivas associadas ao esporte e ao movimento. 

A descoberta deixa uma mensagem importante para pais, escolas e políticas públicas: educação física não deveria ser vista como uma disciplina secundária.

Quando oferecemos a uma criança oportunidades para correr, brincar e praticar esportes, não estamos apenas cuidando do corpo que ela tem hoje. Podemos estar ajudando a construir uma reserva de saúde que ela levará para a vida adulta.

Talvez uma das melhores formas de cuidar do futuro de uma criança seja uma das mais antigas e simples: deixá-la se movimentar.

Referência

  • Smith KJ, Magnussen CG, Cadenas-Sanchez C, et al. The long run: Fitness during childhood and adolescence and its association with adult depression. Journal of Affective Disorders. 2026. 
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Clayton Macedo

Médico endocrinologista e curador do Portal Mais Saúde.

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