Alimentação e exercício podem mudar a placa de gordura nas artérias do coração
Estudo randomizado mostrou que uma mudança intensiva no estilo de vida, somada ao tratamento médico, reduziu principalmente um componente da placa coronariana associado a maior vulnerabilidade
Quando pensamos em aterosclerose, é comum imaginar uma artéria sendo progressivamente entupida por gordura. Na realidade, a história é mais complexa. Não importa apenas o tamanho da placa. Importa também do que ela é feita.
Algumas placas apresentam maior quantidade de gordura e outros componentes não calcificados e são consideradas mais vulneráveis. Outras são predominantemente fibrosas ou calcificadas e tendem a apresentar características diferentes. Foi justamente essa composição que pesquisadores decidiram acompanhar por meio de uma angiotomografia das artérias do coração.
O estudo DISCO-CT avaliou 92 pessoas, com idade média de 60 anos, que já apresentavam placas nas coronárias, mas sem obstruções graves. Todos receberam tratamento médico adequado. Metade recebeu, além disso, um programa intensivo de mudança de estilo de vida, com acompanhamento nutricional frequente, alimentação baseada no padrão DASH e incentivo à prática regular de atividade física.
Depois de aproximadamente 67 semanas, os participantes repetiram a angiotomografia.
O resultado mais interessante não apareceu simplesmente no tamanho total das placas. A principal diferença ocorreu na composição delas.
No grupo que recebeu acompanhamento intensivo, o volume da chamada placa não calcificada caiu, em média, 51,3 mm3. No grupo que recebeu o tratamento habitual, a redução foi de 21,3 mm3. A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa.
Em um dos exemplos apresentados pelos próprios pesquisadores, reproduzido na figura da página 5 do artigo, a proporção de placa não calcificada caiu de 45% para 27%, apesar de o volume total da placa praticamente não ter mudado. É uma ótima demonstração visual de que uma placa pode se modificar mesmo sem simplesmente “desaparecer”.
Quem participou da intervenção também mudou efetivamente seus hábitos. A prática regular de atividade física passou de 51% para 78% dos participantes desse grupo, e a adesão ao padrão alimentar proposto praticamente dobrou.
Há, porém, uma distinção importante: o estudo não provou que dieta e exercício desentopem as artérias nem demonstrou redução de infarto ou mortalidade. Foram apenas 89 participantes na análise final, o acompanhamento foi relativamente curto e o principal resultado foi uma alteração observada por exame de imagem.
Ainda assim, o trabalho acrescenta uma informação interessante àquilo que já sabemos sobre prevenção cardiovascular. Alimentação adequada e atividade física não servem apenas para diminuir peso, colesterol, glicemia ou pressão arterial. Neste estudo, quando associadas ao tratamento médico, elas estiveram relacionadas a uma mudança mensurável na própria estrutura das placas existentes nas coronárias.
É importante também não transformar o resultado em uma falsa disputa entre “estilo de vida” e medicamentos. Os dois grupos receberam tratamento médico, e ao final aproximadamente 80% dos participantes utilizavam estatinas. A intervenção no estilo de vida foi acrescentada ao tratamento, não utilizada para substituí-lo.
Talvez essa seja a mensagem mais interessante do estudo: cuidar do coração não significa apenas tentar impedir que uma placa cresça. Significa também tentar torná-la menos perigosa.
E, pelo menos neste pequeno estudo randomizado, o que colocamos no prato e o quanto movimentamos o corpo parece ter participado dessa transformação.
Referência
- Henzel J, Kępka C, Kruk M, et al. High-Risk Coronary Plaque Regression After Intensive Lifestyle Intervention in Nonobstructive Coronary Disease: A Randomized Study. JACC Cardiovascular Imaging. 2021;14(6):1192-1202.

