Uma injeção por semana pode simplificar o uso de insulina no diabetes tipo 2
Combinação semanal de insulina icodec com semaglutida controlou melhor a glicose, evitou o ganho de peso e apresentou menos hipoglicemias que a insulina glargina diária em estudo publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology
Para muitas pessoas com diabetes tipo 2, chega um momento em que os comprimidos já não são suficientes para controlar adequadamente a glicose e a insulina precisa entrar no tratamento. O problema é que esse passo costuma vir acompanhado de algumas preocupações: injeções diárias, risco de hipoglicemia e ganho de peso.
Um estudo publicado em agosto de 2026 no The Lancet Diabetes & Endocrinology avaliou uma estratégia diferente: reunir em uma única aplicação semanal dois medicamentos que atuam de maneiras complementares.
A combinação, chamada IcoSema, reúne a insulina icodec, uma insulina basal desenvolvida para aplicação uma vez por semana, e a semaglutida, medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1.
O estudo COMBINE 4 acompanhou 485 adultos com diabetes tipo 2 que ainda não utilizavam insulina e apresentavam controle inadequado apesar do uso de medicamentos orais. A hemoglobina glicada média no início era de aproximadamente 9,5%, valor bastante acima das metas habitualmente recomendadas.
Os participantes foram sorteados para receber IcoSema uma vez por semana ou insulina glargina U100 uma vez ao dia. O tratamento durou 40 semanas.
Melhor controle da glicose
A diferença foi expressiva: a hemoglobina glicada caiu 3,32 pontos percentuais com IcoSema, passando de aproximadamente 9,6% para valores próximos de 6,3%. Com a glargina diária, a redução foi de 2,44 pontos percentuais, chegando a aproximadamente 7,1%.
A diferença entre os tratamentos foi de 0,88 ponto percentual a favor da combinação semanal.
Isso é relevante porque os dois grupos receberam tratamento direcionado a uma meta de glicemia. Mesmo assim, a combinação de insulina com semaglutida conseguiu um controle glicêmico superior.
Uma diferença importante apareceu na balança
O tratamento com insulina frequentemente vem acompanhado de ganho de peso. No estudo, isso ocorreu com a glargina: os participantes ganharam, em média, 3,81 kg durante as 40 semanas.
Com IcoSema ocorreu o contrário: houve uma pequena redução média de 0,79 kg.
A diferença entre os grupos chegou a 4,61 kg.
É importante interpretar corretamente esse resultado. IcoSema não deve ser apresentado como um tratamento destinado primariamente ao emagrecimento. O dado relevante é que, enquanto o grupo tratado somente com insulina basal ganhou peso, a combinação com semaglutida evitou esse fenômeno e produziu discreta redução ponderal.
E houve menos hipoglicemia
Talvez um dos resultados mais interessantes seja que o melhor controle da glicose não foi obtido às custas de mais episódios importantes de hipoglicemia.
A taxa combinada de hipoglicemias clinicamente significativas ou graves foi de 0,29 episódio por pessoa-ano com IcoSema e 0,59 com glargina. Estatisticamente, a taxa foi cerca de 44% menor com a combinação semanal.
Os eventos adversos mais frequentes com IcoSema foram gastrointestinais, algo já conhecido com medicamentos da classe da semaglutida.
Menos injeções, mas não necessariamente um tratamento simples
A possibilidade de substituir uma aplicação diária de insulina por uma aplicação semanal chama atenção. Em termos teóricos, isso poderia reduzir substancialmente o número de injeções ao longo de um ano.
Mas frequência menor não significa ausência de complexidade.
Insulina continua sendo um medicamento que exige prescrição, ajuste de dose e acompanhamento. Além disso, combinar em uma única formulação uma insulina de ação semanal e um agonista de GLP-1 traz características próprias de titulação que precisam ser consideradas individualmente.
O estudo também foi aberto, ou seja, médicos e participantes sabiam qual tratamento estava sendo utilizado. Durou 40 semanas e foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante da combinação investigada. Esses aspectos não invalidam os resultados, mas precisam fazer parte de sua interpretação.
Uma mudança importante no tratamento do diabetes
Talvez o aspecto mais interessante do estudo não seja simplesmente trocar sete aplicações semanais por uma.
O conceito é mais amplo: associar, desde o momento da introdução da insulina, dois mecanismos complementares capazes de melhorar intensamente a glicemia enquanto se tenta minimizar dois problemas tradicionalmente associados à insulinização: ganho de peso e hipoglicemia.
O COMBINE 4 sugere que uma combinação semanal de insulina basal com um agonista de GLP-1 pode representar uma nova forma de pensar a intensificação do tratamento do diabetes tipo 2.
Não se trata apenas de aplicar insulina menos vezes. Trata-se de tentar obter um controle metabólico melhor com menor carga terapêutica para o paciente.
Referência
Ji L, Benamar M, Mohan V et al. Once-weekly IcoSema versus once-daily insulin glargine U100 in type 2 diabetes management (COMBINE 4): an open-label, multicentre, treat-to-target, randomised, phase 3b trial. The Lancet Diabetes & Endocrinology. Online first. August 13, 2026. ClinicalTrials.gov: NCT06269107. Funding: Novo Nordisk.

