A próxima fronteira da medicina: preservar músculos durante o envelhecimento e o emagrecimento
O endocrinologista e médico do esporte Dr. Clayton Macedo, curador do Portal Mais Saúde, foi uma das fontes ouvidas pela reportagem de O Globo que abordou essa nova fronteira da medicina e os limites das terapias em desenvolvimento para preservação da massa muscular
Mais de 40 substâncias estão em desenvolvimento para combater a perda de massa muscular. Algumas poderão complementar o tratamento da obesidade e da sarcopenia, mas ainda há perguntas importantes sobre eficácia, função muscular e segurança. E uma certeza permanece: nenhuma delas substitui o exercício.
Depois da revolução provocada pelos novos medicamentos para obesidade, outra fronteira começa a ganhar espaço na pesquisa: drogas desenvolvidas para preservar ou recuperar a massa muscular.
Atualmente, mais de 40 substâncias candidatas estão em diferentes estágios de desenvolvimento. O interesse é enorme porque perder músculos está longe de ser apenas uma questão estética.
Com o envelhecimento, ocorre redução progressiva da massa e, principalmente, da força e da função muscular. Doenças crônicas, imobilização, câncer, diabetes, obesidade e perdas acentuadas de peso podem acelerar esse processo. Preservar músculos significa ajudar a manter mobilidade, autonomia e qualidade de vida.
Tirando o “freio” do crescimento muscular
Entre as estratégias mais avançadas estão medicamentos que interferem nas vias da miostatina e da activina, proteínas envolvidas na regulação da massa muscular.
De maneira simplificada, a miostatina funciona como um dos freios naturais ao crescimento excessivo dos músculos. Bloquear sua ação, ou interferir em mecanismos relacionados a ela, pode favorecer a preservação ou o aumento da massa muscular.
Entre as moléculas atualmente em desenvolvimento estão apitegromab, bimagrumab e trevogrumab, com diferentes mecanismos e estágios de pesquisa. São abordagens completamente diferentes do uso de testosterona e outros esteroides anabolizantes.
Outras estratégias também estão sendo investigadas, incluindo o L-β-aminoisobutírico (L-BAIBA), uma molécula relacionada às adaptações provocadas pelo exercício, além de pesquisas envolvendo folistatina e até terapia gênica.
Estamos, portanto, diante de algo muito mais complexo do que simplesmente criar uma “caneta para ganhar músculos”.
Um possível parceiro dos medicamentos para obesidade
Essa área ganhou ainda mais importância com o avanço dos tratamentos farmacológicos da obesidade.
Quando uma pessoa perde uma quantidade expressiva de peso, a maior parte dessa redução desejavelmente ocorre às custas de gordura. Entretanto, alguma redução de massa magra também pode acontecer.
Surge então uma pergunta importante: seria possível combinar medicamentos para obesidade com tratamentos capazes de preservar melhor a musculatura durante o emagrecimento?
Essa é uma das aplicações mais promissoras dessas novas drogas.
Algumas dessas estratégias, quando utilizadas isoladamente, ainda não demonstraram efeitos suficientemente expressivos sobre a massa magra para justificar expectativas exageradas. Entretanto, quando associadas a medicamentos utilizados para perda de peso, existe a possibilidade de reduzir a perda muscular.
Os resultados são promissores, mas ainda precisamos de mais estudos para estabelecer com precisão quais pacientes realmente se beneficiarão, além da eficácia e segurança em longo prazo.
Músculo maior não significa necessariamente músculo melhor
Este é um ponto fundamental: aumentar massa muscular não é a mesma coisa que melhorar força e função muscular.
Um músculo saudável não é definido apenas pelo tamanho. Ele precisa produzir força, responder aos estímulos do sistema nervoso, utilizar energia adequadamente e permitir que uma pessoa caminhe, levante-se, carregue objetos, mantenha o equilíbrio e preserve sua independência.
Essa diferença ajuda a explicar por que alguns medicamentos capazes de aumentar a massa muscular não avançaram em seu desenvolvimento: o aumento do volume nem sempre foi acompanhado por uma melhora proporcional da força ou da função.
Também permanecem questões importantes sobre segurança. Os efeitos em longo prazo da interferência nas vias da miostatina e da activina ainda precisam ser compreendidos, inclusive suas possíveis repercussões sobre metabolismo, vascularização muscular e tendões.
E para estética e performance?
É previsível que medicamentos capazes de aumentar ou preservar músculos despertem interesse entre pessoas saudáveis em busca de estética ou performance.
Mas essa não é a finalidade para a qual essas terapias estão sendo desenvolvidas.
Um medicamento precisa demonstrar que seus benefícios superam seus riscos para uma determinada condição clínica. Quando uma droga criada para tratar uma doença é utilizada por uma pessoa saudável simplesmente para modificar o corpo, essa relação entre risco e benefício pode ser completamente diferente.
A história da medicina recomenda cautela diante da transformação precoce de tratamentos médicos em atalhos estéticos.
Nenhuma caneta reproduz o exercício
Apesar de toda a sofisticação dessa nova farmacologia, existe algo que dificilmente caberá dentro de uma seringa: a extraordinária complexidade biológica do exercício.
Quando nos exercitamos, não estamos simplesmente aumentando o tamanho dos músculos. O treinamento provoca adaptações simultâneas no cérebro, coração, vasos sanguíneos, metabolismo, mitocôndrias, ossos e no próprio sistema neuromuscular.
As novas drogas poderão ajudar determinados pacientes a preservar músculos. Poderão ter papel importante na sarcopenia, em doenças que provocam perda muscular e, eventualmente, na preservação da massa magra durante grandes perdas de peso.
Mas não são uma “bala de prata”. E não devem ser interpretadas como medicamentos destinados a produzir músculos extras em pessoas saudáveis.
A farmacologia poderá ajudar a preservar o músculo.
O exercício continuará sendo necessário para fazê-lo funcionar.
Bibliografia
- Azevedo AL. Novas “canetas para músculos” prometem combater perda de massa e envelhecimento; entenda. O Globo Online, Saúde, 31 ago. 2026.

