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Só me falta vitamina! Existe mesmo vitamina para a memória?

É uma pergunta cada vez mais comum no consultório e também  nas buscas na internet: existe alguma vitamina que melhore a memória?

A resposta curta para essa pergunta é: depende.

Algumas deficiências nutricionais podem, de fato, prejudicar o funcionamento do cérebro. Mas isso é muito diferente de dizer que tomar vitaminas, mesmo quando não existe deficiência, seja capaz de aumentar a memória ou prevenir doenças neurológicas.

Talvez o melhor exemplo seja a vitamina B12. Quando seus níveis estão muito baixos, podem surgir alterações cognitivas, dificuldade de concentração, lentificação do pensamento, alterações de sensibilidade e até problemas de marcha. Nesses casos, identificar e corrigir a deficiência é importante e pode melhorar os sintomas.

O mesmo raciocínio vale, em determinadas situações, para o ácido fólico e outras deficiências nutricionais. O problema começa quando se transforma essa lógica em uma conclusão equivocada: se a falta de determinada vitamina faz mal ao cérebro, então quanto mais eu tomar, melhor meu cérebro funcionará.

Não é assim que funciona.

Nosso organismo não se comporta como um tanque que, quanto mais cheio estiver, melhor funcionará. Na maioria das pessoas que já apresentam níveis adequados de vitaminas, acrescentar doses elevadas não produz melhora significativa da memória.

A vitamina D é outro exemplo frequente. Estudos observacionais mostram que pessoas com níveis baixos de vitamina D apresentam maior frequência de diversos problemas de saúde, inclusive alterações cognitivas. Isso, porém, não significa necessariamente que a deficiência seja a causa direta desses problemas. Pessoas mais frágeis, sedentárias ou com outras doenças também tendem a ter níveis mais baixos de vitamina D.

Quando se testa a suplementação de forma controlada em indivíduos sem deficiência importante, os resultados sobre memória e prevenção de demência são muito menos impressionantes do que muitas propagandas fazem parecer.

O mesmo ocorre com diversos suplementos vendidos com a promessa de melhorar a memória: ômega 3, magnésio, complexos vitamínicos, ginkgo biloba e os chamados “nootrópicos”. Alguns têm estudos interessantes em situações específicas, outros apresentam evidências bastante frágeis, mas nenhum deles funciona como uma espécie de combustível universal para o cérebro.

Isso não significa que nutrição seja irrelevante. Muito pelo contrário.

Uma alimentação equilibrada faz parte das estratégias mais importantes de proteção cerebral ao longo da vida. O ponto é que o benefício parece vir muito mais do padrão alimentar global do que de uma cápsula isolada. Dietas ricas em vegetais, frutas, legumes, grãos integrais, peixes e fontes adequadas de gorduras insaturadas estão associadas a melhor saúde cardiovascular e cerebral.

E existe aqui uma mensagem talvez menos atraente comercialmente, mas muito mais consistente cientificamente: aquilo que mais protege a memória raramente vem dentro de um frasco.

Atividade física regular, sono adequado, controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, redução do tabagismo e do consumo excessivo de álcool, manutenção de vínculos sociais, tratamento de depressão e perda auditiva e estímulo cognitivo ao longo da vida têm muito mais respaldo científico na preservação da saúde cerebral.

Outro ponto importante é entender que “problema de memória” não é um diagnóstico.

Uma pessoa pode esquecer mais porque está dormindo mal, ansiosa, deprimida, utilizando determinadas medicações, com apneia do sono, com deficiência de vitamina B12, ou simplesmente sobrecarregada e,  dividindo sua atenção entre dezenas de estímulos ao mesmo tempo.

Em outros casos, a dificuldade de memória pode ser uma manifestação inicial de uma doença neurológica. Por isso, quando há piora progressiva, repetição frequente de perguntas, dificuldade crescente para administrar dinheiro, compromissos ou medicamentos, desorientação ou perda de autonomia, a melhor estratégia não é começar um suplemento por conta própria, mas investigar a causa.

Há ainda um risco menos lembrado: vitaminas também podem fazer mal.

Doses excessivas de vitamina B6, por exemplo, podem causar neuropatia periférica. Quantidades elevadas de vitaminas lipossolúveis, como as vitaminas A e D, podem se acumular no organismo e produzir toxicidade. Mesmo suplementos vendidos sem receita não são necessariamente inofensivos.

Talvez por isso a pergunta correta não seja “qual vitamina melhora a memória?”, mas outra: existe alguma deficiência ou algum problema tratável que esteja prejudicando minha memória?

Quando existe deficiência, suplementar pode ser fundamental. 

Quando não existe, quase sempre vale mais investir naquilo que sabemos que realmente mantém o cérebro saudável.

E, infelizmente para a indústria dos suplementos, isso costuma envolver menos cápsulas e mais exercício, sono, alimentação adequada e cuidado com a saúde como um todo.

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Diogo Haddad

Professor neurologista e colunista do Portal Mais Saúde.

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