Monetização do corpo: por que jovens ‘bombados’ estão morrendo em meio ao culto ao shape?
Especialista alerta para os riscos da cultura fitness que transforma estética em mercado e ignora seus impactos na saúde
Crônica publicada em 25.05.2026 em Veja na coluna Letra de Médico
Quantos jovens precisarão colapsar em academias, vestiários, hotéis de competição ou apartamentos até que se reconheça que existe um problema coletivo e progressivamente naturalizado?
Talvez uma das características mais perigosas desse cenário seja justamente sua aparência de normalidade. Os corpos estão em toda parte: nas redes sociais, em feiras fitness, consultórios de luxo, cursinhos de fim semana que vendem falsa expertise em anabolismo hormonal, pós-graduações suspeitas, congressos de falsos especialistas e na medicina baseada em faturamento.
O uso de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento, insulina, peptídeos experimentais, diuréticos, estimulantes e múltiplos protocolos sem respaldo científico deixou de ocupar posição periférica. Existe hoje um modelo econômico baseado na monetização do corpo. Corpos hipertróficos geram atenção, engajamento, vendas e lucro. Nesse ambiente, a farmacologia desaparece da narrativa justamente porque sua invisibilidade sustenta o valor comercial da fantasia. A pressão estética vira produto e a insuficiência corporal vira mercado.
O adolescente observa físicos biologicamente improváveis sendo apresentados como simples consequência de disciplina. Jovens médicos e estudantes de medicina presenciam colegas e influenciadores transformando testosterona, “modulação hormonal” e protocolos suprafisiológicos em linguagem cotidiana e possibilidade de sucesso financeiro. A testosterona vira ferramenta de disposição, definição corporal, libido e “performance metabólica”. A fisiologia humana passa a ser tratada como algo permanentemente insuficiente e continuamente “otimizável”.
Enquanto isso, as complicações seguem se instalando. Algumas agudas e fatais. Outras silenciosas, cobrando um preço anos depois.
No caso da insulina, o cenário é ainda mais delicado. Trata-se de um hormônio vital, mas sem segurança para quem não tem diabetes. Pequenos erros de dose, timing alimentar ou interação farmacológica podem desencadear hipoglicemia grave, convulsões, arritmias, coma e morte. Quando associada a doses cavalares de esteroides anabolizantes, restrição alimentar, “canetas” antiobesidade e diabetes, estimulantes, diuréticos e treinamento exaustivo, cria-se um ambiente biologicamente instável e fatal.
E, ainda assim, a cultura contemporânea interpreta esses desfechos como fatalidades isoladas. Não são.
A pergunta talvez não seja mais se existe um problema. A pergunta é por que continuamos sem reação diante dele.
Parte da resposta está no fato de que um ecossistema inteiro lucra com a manutenção da ambiguidade. Influenciadores e “atletas” monetizam corpos extremos. Clínicas transformam ansiedade e pressão estética em recorrência financeira. Cursos simplificam endocrinologia em protocolos rasos. Farmácias manipulam substâncias controversas em escala industrial. Plataformas digitais impulsionam vendas.
Mas reduzir o debate apenas à crítica também seria insuficiente. É necessário discutir soluções concretas.
Existe uma alternativa talvez menos compatível com os algoritmos da estética extrema, mas muito mais alinhada à fisiologia humana: o fisiculturismo natural. O treinamento natural não elimina todos os riscos do esporte, mas reduz drasticamente a exposição à polifarmácia e às complicações do uso suprafisiológico de hormônios. Talvez represente justamente a recuperação de um conceito simples: evolução física sustentável ainda depende principalmente de treino, nutrição, recuperação e tempo.
Precisamos recuperar a centralidade da medicina baseada em evidência no debate hormonal. Hormônios não podem ser tratados como ferramentas recreativas de performance estética.
Publicidade indireta de hormônios, promoção estética de protocolos suprafisiológicos e venda disfarçada de “otimização hormonal” precisam ser enfrentadas com maior rigor técnico, ético e regulatório.
É fundamental fortalecer a educação médica ética e formal. A banalização da endocrinologia em cursos rápidos cria um ambiente perigoso, especialmente quando jovens profissionais passam a aprender farmacologia hormonal com pessoas sem formação científica estruturada e guiadas apenas pela monetização.
Também é indispensável ampliar estratégias de educação pública para adolescentes e jovens adultos. O debate precisa abandonar o moralismo simplista e incorporar linguagem científica clara e contemporânea. O adolescente atual não está sendo influenciado apenas por ambientes clandestinos. Está sendo influenciado por algoritmos, influenciadores, médicos e discursos aparentemente legitimados.
Além disso, precisamos avançar em farmacovigilância e vigilância epidemiológica reais. O número de eventos adversos relacionados ao uso estético de hormônios provavelmente permanece subnotificado. Sem dados consistentes, a dimensão do problema segue invisível para parte das autoridades e da sociedade.
Vivemos uma era em que corpos farmacologicamente amplificados passaram a representar sucesso, disciplina e superioridade biológica. E quando uma sociedade transforma fenótipos extremos em padrão aspiracional coletivo, o problema deixa de ser apenas endocrinológico – passa a ser de saúde pública, regulatório e legal.
