A crise das canetas emagrecedoras: brechas regulatórias geram oportunismo, charlatanismo e medicina ilegal
Em artigo especial, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia expõe o mercado paralelo de drogas para perda de peso
Crônica publicada em 13.04.2026 em Veja na coluna Letra de Médico
O que está acontecendo no Brasil com as “canetas emagrecedoras” – nome incorreto, pois são medicamentos que fazem parte do tratamento do diabetes e da obesidade – vai além da consagração e expansão do uso pela alta eficácia e demanda. Trata-se da formação de uma cadeia paralela de produção, prescrição, venda e aplicação que opera fora dos padrões básicos da medicina, da vigilância sanitária e das regras éticas profissionais. O aspecto central não é apenas a irregularidade, mas a forma como esse sistema se estruturou e ganhou escala.
Um medicamento dessa complexidade exige pesquisa e aprovação regulatória, com avaliação médica, indicação precisa, prescrição formal, acompanhamento e controle rigoroso de qualidade, desde a fabricação até o uso. O que se observa é a inversão desse processo. O produto chega antes da consulta, a oferta cria a demanda e a prescrição deixa de ser o elemento que organiza o cuidado.
Parte da produção ocorre fora de padrões internacionais de controle sanitário, sem rastreabilidade e validação, partindo da origem duvidosa ou desconhecida do insumo para fabricação. Há falsificações da própria versão paralela, o que amplia a incerteza. O transporte, que deveria preservar temperatura e estabilidade, ocorre de forma improvisada, incompatível com a natureza do fármaco. Nesse contexto, dose, potência e segurança são imprevisíveis.
Paraguaio ou manipulado no Brasil, o medicamento é rapidamente absorvido por uma rede ampla e milionária. Profissionais de saúde não médicos passam a indicar, vender e aplicar, ultrapassando suas atribuições legais.
Nutricionistas, biomédicos, fisioterapeutas, dentistas, enfermeiros e estetas assumem decisões terapêuticas sem respaldo técnico para isso. Pasmem: pessoas fora da área da saúde, em salões de beleza e clínicas de massagem, oferecem o produto.
No próprio meio médico, a situação é ainda mais crítica. Parte dos profissionais utiliza produtos sem registro ou com equivalência não comprovada, com versões manipuladas tratadas como substitutas das industriais.
Do ponto de vista regulatório, a Anvisa estabelece critérios técnicos e o Conselho Federal de Medicina define regras de exercício profissional. O desafio está na ambiguidade regulatória, com uma zona cinzenta de limites legais e éticos, fiscalização limitada, baixa notificação ou denúncias e processos lentos, criando áreas onde a chance de punição é reduzida e permitindo a livre continuidade dessas práticas.
Esse sistema paralelo funciona de forma altamente lucrativa, mas sem garantir segurança clínica. A correção desse cenário exige proibição da má prática, com fechamento de todas as brechas regulatórias, clareza de ações, ampliação da fiscalização, denúncias e responsabilizações efetivas. Sem essas medidas, o risco se amplia justamente para quem deveria estar protegida: a população.
Pacotes de protocolos de aplicação em clínicas de luxo, com infusões de soros, vitaminas sem indicação e implantes hormonais manipulados, são vendidos descaradamente. Lucro fácil, sem preocupação alguma com os riscos.
As farmácias de manipulação extrapolam seu papel original de personalização individual posterior à prescrição do médico para um paciente específico. Ao produzir substâncias complexas em escala gigantesca, com estoques volumosos, sem a estrutura da indústria farmacêutica, surgem limitações em pureza, esterilidade, estabilidade e padronização, o que compromete a segurança. Tudo acoplado a um marketing irregular e cursos rápidos para recrutamento de médicos comercializadores.
