Menopausa, obesidade e terapia hormonal: o que a ciência realmente mostra?
Terapia hormonal pode melhorar a composição corporal e facilitar o cuidado da saúde, mas não é um tratamento para emagrecer
A menopausa costuma ser acompanhada por uma queixa frequente: “estou fazendo as mesmas coisas e continuo ganhando gordura”. A ciência mostra que essa percepção tem fundamento. A queda dos níveis de estrogênio modifica profundamente a composição corporal, favorecendo o aumento da gordura abdominal (visceral), a perda de massa muscular e uma redução gradual do gasto energético. Essas alterações aumentam o risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e obesidade, mesmo quando o peso total muda pouco.
Uma nova revisão clínica publicada na Obesity Pillars reúne as principais evidências sobre terapia hormonal da menopausa (THM) e controle do peso. A principal conclusão é clara: a terapia hormonal não deve ser prescrita para emagrecimento. Ensaios clínicos e metanálises mostram que ela produz pouca ou nenhuma redução significativa do peso corporal. Por outro lado, pode trazer benefícios importantes na distribuição da gordura corporal, reduzindo o acúmulo de gordura visceral e ajudando a preservar a massa magra, especialmente quando iniciada em mulheres com indicação clínica adequada.
Os autores também destacam que a THM pode melhorar sintomas que frequentemente dificultam a adoção de hábitos saudáveis, como ondas de calor, alterações do sono, dores musculoesqueléticas e piora do humor. Com isso, muitas mulheres conseguem praticar mais atividade física, dormir melhor e aderir com maior facilidade a programas de alimentação saudável, fatores que indiretamente favorecem o controle do peso.
Outro ponto interessante é o surgimento de estudos observacionais sugerindo que mulheres em terapia hormonal podem apresentar maior perda de peso quando utilizam medicamentos antiobesidade, como semaglutida ou tirzepatida. Em um estudo retrospectivo, usuárias de tirzepatida associada à terapia hormonal perderam, em média, 17% do peso corporal, contra 14% entre aquelas que não utilizavam hormônios. Além disso, 45% das mulheres em THM perderam pelo menos 20% do peso, comparado com 18% das não usuárias. Em outro estudo, mulheres que utilizavam semaglutida perderam cerca de 16% do peso, contra 12% nas que não faziam terapia hormonal. Entretanto, os próprios autores fazem um alerta importante: esses trabalhos são retrospectivos, envolveram poucos participantes e não comprovam uma relação de causa e efeito. São resultados promissores, mas que ainda precisam ser confirmados por estudos clínicos randomizados.
Mensagem prática
A terapia hormonal continua sendo indicada para mulheres com sintomas importantes da menopausa ou outras indicações reconhecidas pelas diretrizes, após avaliação individualizada de riscos e benefícios. Ela pode contribuir para uma melhor composição corporal e saúde metabólica, mas não substitui alimentação adequada, exercício físico, sono de qualidade, tratamento da obesidade e, quando indicado, medicamentos específicos para perda de peso. O manejo da menopausa e da obesidade deve ser visto como duas estratégias complementares, nunca como sinônimos.
Referência
- Younglove C. Menopause hormone therapy in weight management. Obesity Pillars. 2026;18:100258.

