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Seria TDAH uma epidemia?

Nos últimos anos, parece que o TDAH saiu dos consultórios e entrou definitivamente nas redes sociais

Vídeos sobre “sinais de que você tem TDAH” acumulam milhões de visualizações. Dificuldade para terminar um livro, procrastinação, esquecer onde deixou as chaves, começar várias tarefas ao mesmo tempo, perder o interesse rapidamente por uma conversa ou pegar o celular a cada poucos minutos passaram a ser apresentados como sinais quase diagnósticos.

E então surge uma pergunta cada vez mais frequente: será que todo mundo tem TDAH agora? Não.

Mas também seria errado concluir que o aumento da discussão sobre o transtorno é apenas uma moda.

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, é uma condição real do neurodesenvolvimento. Seus sintomas costumam surgir desde fases precoces da vida e podem persistir na idade adulta, afetando desempenho acadêmico, profissional, relações pessoais, organização, controle de impulsos e diversas atividades cotidianas.

Durante muito tempo, principalmente nos adultos e em pessoas com apresentações menos hiperativas, o diagnóstico foi subestimado. Nesse sentido, o aumento da informação e da conscientização trouxe um benefício importante: pessoas que passaram anos acreditando simplesmente serem “preguiçosas”, “desorganizadas” ou incapazes começaram a procurar avaliação adequada.

O problema aparece quando conscientização vira autodiagnóstico.

Um vídeo de 30 segundos pode despertar uma suspeita. Não pode estabelecer um diagnóstico.

Isso ocorre porque quase todos nós apresentamos, em algum momento, sintomas que também podem aparecer no TDAH. Todos procrastinamos. Todos nos distraímos. Todos esquecemos compromissos ocasionalmente. Podemos ter períodos em que nossa capacidade de concentração piora muito.

A diferença está no conjunto da história, na intensidade, na persistência, no prejuízo funcional e principalmente no fato de que o TDAH não costuma simplesmente surgir, sem qualquer antecedente, aos 35 ou 40 anos.

Quando uma pessoa sempre foi organizada e capaz de manter atenção prolongada e passa, nos últimos meses, a não conseguir terminar uma página de um livro, precisamos pensar em muitas outras possibilidades antes de concluir que ela desenvolveu TDAH.

Sono inadequado, ansiedade, depressão, estresse, excesso de trabalho, uso de álcool ou outras substâncias, alguns medicamentos e até doenças clínicas podem prejudicar de maneira importante a atenção.

Existe ainda um personagem relativamente novo nessa história: o ambiente digital.

Nosso cérebro está sendo submetido diariamente a uma quantidade de estímulos que seria difícil imaginar algumas décadas atrás. Mensagens, vídeos curtos, notificações, e-mails, notícias e redes sociais disputam nossa atenção o tempo todo.

Cada interrupção parece pequena. Somadas ao longo do dia, porém, elas modificam a maneira como utilizamos nossa atenção.

É importante fazer uma distinção: utilizar excessivamente redes sociais não transforma necessariamente uma pessoa em alguém com TDAH. Os estudos mostram uma associação, e não uma relação causal simples.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, incluindo mais de 35 mil participantes, encontrou uma associação moderada entre uso problemático de redes sociais e sintomas de TDAH. Isso pode ocorrer em mais de uma direção: pessoas naturalmente mais impulsivas e desatentas podem ser mais vulneráveis ao uso problemático das redes, enquanto o consumo digital excessivo também pode agravar dificuldades de concentração.

Uma revisão mais recente, avaliando estudos publicados entre 2015 e 2025, encontrou resultado semelhante em adolescentes. A maioria dos trabalhos identificou associação principalmente entre uso problemático de redes sociais e sintomas de desatenção e impulsividade. Os próprios autores, entretanto, chamam atenção para o fato de que grande parte dos estudos é transversal e, portanto, não permite afirmar quem veio primeiro.

Isso é particularmente importante porque talvez estejamos confundindo duas situações diferentes: ter um transtorno de atenção e viver em um ambiente que tornou mais difícil prestar atenção.

A atenção humana é limitada.

Quando lemos um livro, assistimos a uma aula ou participamos de uma conversa longa, precisamos sustentar voluntariamente o foco em um estímulo que nem sempre oferece recompensa imediata.

As redes sociais funcionam de forma diferente. A cada poucos segundos existe a possibilidade de algo novo, divertido, surpreendente ou emocionalmente relevante.

Não é estranho, portanto, que depois de horas nesse ambiente uma página de texto pareça lenta.

Isso não significa que o cérebro tenha sido “estragado”. Significa que estamos treinando repetidamente determinadas formas de direcionar nossa atenção.

Há ainda outro problema: as próprias redes sociais passaram a ensinar seus usuários a reconhecer transtornos psiquiátricos.

Uma revisão sobre autodiagnóstico em saúde mental publicada recentemente chama atenção para o papel ambíguo dessas plataformas. Elas podem aumentar a conscientização e reduzir estigma, mas também disseminar informações incompletas ou incorretas e favorecer diagnósticos feitos sem avaliação profissional.

No TDAH, esse fenômeno é particularmente evidente.

Muitas características descritas em vídeos como “sintomas ocultos de TDAH” são suficientemente comuns para que grande parte das pessoas consiga se identificar com elas. É um mecanismo parecido com ler uma lista de sintomas na internet e perceber que temos vários deles.

Diagnóstico médico, entretanto, não é uma soma de características isoladas.

No caso do TDAH, é necessário compreender como aquela pessoa funcionava desde a infância, em quais ambientes os sintomas aparecem, se realmente produzem prejuízo e se existe alguma condição que explique melhor o quadro.

Por isso, testes rápidos encontrados na internet também devem ser interpretados com cautela.

Questionários podem ser excelentes instrumentos de rastreamento. Eles ajudam a identificar quem merece uma avaliação mais detalhada. Mas rastreamento e diagnóstico são coisas diferentes.

Da mesma maneira, melhorar com um estimulante não comprova TDAH. Pessoas sem o transtorno também podem sentir aumento transitório de vigília, disposição ou concentração com determinadas medicações.

Talvez uma pergunta mais útil do que “será que tenho TDAH?” seja: “por que minha atenção está pior?”.

Em algumas pessoas, a resposta realmente será TDAH. Em outras, será sono ruim, ansiedade, depressão ou sobrecarga.

E, para muitas, talvez exista algo ainda mais simples: estamos tentando exigir do cérebro uma atenção contínua enquanto passamos o restante do dia treinando-o para ser interrompido a cada poucos segundos.

Antes de transformar toda distração em doença, vale entender de onde ela vem.

E antes de concluir que ninguém consegue mais prestar atenção porque “todo mundo tem TDAH”, talvez seja necessário olhar também para o ambiente que construímos ao redor da nossa atenção.

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Diogo Haddad

Professor neurologista e colunista do Portal Mais Saúde.

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