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Série Câncer Colorretal – artigo 4 

Tirei um pólipo. Quando preciso repetir a colonoscopia?

Depois de uma colonoscopia bem-feita, repetir cedo demais nem sempre protege mais. O intervalo depende do número, tamanho e tipo dos pólipos — e, antes de contar os anos, precisamos ter certeza de que o primeiro exame realmente foi de qualidade

Existe uma pergunta que aparece quase imediatamente depois que entregamos um laudo de colonoscopia: “Doutor, quando tenho que fazer outra?”

A resposta pode ser seis meses. Pode ser três anos. Pode ser cinco. Pode ser dez. E, cada vez mais, talvez tenhamos que aprender que fazer mais exames não significa necessariamente prevenir mais câncer.

Mas existe uma condição antes de qualquer tabela de intervalos: a colonoscopia inicial precisa ter sido boa.

As tabelas começam com uma frase que muita gente não lê

As principais recomendações internacionais de vigilância depois da retirada de pólipos partem do pressuposto de uma colonoscopia de alta qualidade. Isso significa, de forma prática:

  • preparo intestinal adequado para enxergar pequenas lesões
  • exame completo até o ceco, com documentação
  • inspeção cuidadosa por um endoscopista com boa taxa de detecção
  • e retirada completa dos pólipos encontrados

As recomendações atuais de qualidade vão além e estabelecem metas mensuráveis, como preparo adequado em pelo menos 90% dos exames, intubação cecal em pelo menos 95%, ADR mínima em torno de 35% e tempo adequado de inspeção durante a retirada do aparelho. Por isso, dizer “minha colonoscopia deu normal, então volto em dez anos” só faz sentido se realmente tivermos confiança naquele exame.

Os dados disponíveis mostram que no Brasil o acesso a colonoscopia de alta qualidade é bastante heterogêneo. Em um estudo com 17.448 colonoscopias realizadas em 11 hospitais privados brasileiros, o preparo foi adequado em 94,4% e a intubação cecal em 94%, mas equipamentos de alta definição foram usados em apenas 53,9% dos procedimentos. A taxa de detecção de pólipos chegou a variar de 21,1% a 57,5% entre hospitais. Não significa que metade das colonoscopias brasileiras seja ruim; significa que o local e o profissional realmente fazem diferença. Por isso, escolher bem, conhecer o médico e o serviço onde vai fazer o procedimento é essencial.

Se a colonoscopia foi normal, normalmente não precisamos ter pressa

Para uma pessoa de risco habitual, com uma colonoscopia completa, preparo adequado e nenhum pólipo relevante encontrado, a recomendação tradicional permanece simples: repetir em 7 a 10 anos.

A evidência é bastante tranquilizadora. Pessoas com colonoscopia normal de boa qualidade mantêm risco reduzido de câncer colorretal durante muitos anos. 

O rastreamento da população de risco habitual hoje costuma começar aos 45 anos e seguir até os 75. Entre 76 e 85 anos, a decisão deve ser individual: saúde geral, expectativa de vida, exames anteriores, risco pessoal e preferência do paciente entram na conta. Depois dos 85, o benefício populacional do rastreamento torna-se muito pequeno.

Isso é diferente de simplesmente dizer que “colonoscopia acaba aos 75”. Uma pessoa saudável de 78 anos que nunca foi rastreada é muito diferente de outra, também com 78, que realizou várias colonoscopias normais e tem comorbidades importantes.

Encontramos adenomas. Agora o relógio muda

Nas recomendações americanas, depois de uma colonoscopia de qualidade e retirada completa:

  • 1 ou 2 adenomas tubulares menores que 10 mm: nova colonoscopia em 7 a 10 anos.
  • 3 ou 4 adenomas menores que 10 mm: 3 a 5 anos.
  • 5 a 10 adenomas: 3 anos.
  • Adenoma com 10 mm ou mais, displasia de alto grau ou componente viloso: tradicionalmente 3 anos.
  • Mais de 10 adenomas: em geral 1 ano, além de considerar investigação de síndrome genética.

E existe uma situação completamente diferente: um pólipo grande retirado em fragmentos, o chamado piecemeal. Em um adenoma com 20 mm ou mais retirado dessa forma, recomendamos revisar o local em aproximadamente 6 meses, porque precisamos ter certeza de que nenhum tecido residual permaneceu. 

É por isso que simplesmente dizer “eu tive pólipo” é informação insuficiente. Eu preciso saber quantos, qual tamanho, qual histologia e como foram retirados.

E as lesões serrilhadas?

Aqui a história fica um pouco mais nebulosa. Lesões serrilhadas sésseis também podem ser precursoras do câncer, mas nossa evidência sobre o melhor intervalo ainda é menos robusta.

Pelas recomendações americanas, 1 ou 2 lesões serrilhadas sésseis menores que 10 mm geralmente levam a nova colonoscopia em 5 a 10 anos; 3 ou 4, em 3 a 5 anos; 5 a 10, em 3 anos. Uma lesão serrilhada com 10 mm ou mais, com displasia, ou um adenoma serrilhado tradicional geralmente leva a vigilância em 3 anos. Se uma lesão serrilhada grande, com 20 mm ou mais, foi retirada em fragmentos, voltamos novamente para aproximadamente 6 meses.

E temos dados novos interessantes: uma análise prospectiva apresentada agora pelo grupo EPoS encontrou risco de câncer colorretal de apenas 1% em cinco anos entre pacientes com pólipos serrilhados. É tranquilizador, embora ainda não seja suficiente para jogarmos fora as recomendações atuais.

E se o preparo foi ruim?

Aí existe um problema simples: não podemos aplicar com segurança os intervalos acima.

Se havia fezes ou resíduos suficientes para esconder pólipos relevantes, aquela colonoscopia não pode ser considerada uma boa “linha de base”. As recomendações de qualidade orientam que uma colonoscopia com preparo inadequado seja repetida dentro de um ano — eventualmente bem antes, dependendo de quanto ficou sem ser examinado e da indicação original. É exatamente o mesmo raciocínio para uma colonoscopia incompleta: não começamos a contar dez anos a partir de um exame que não avaliou adequadamente todo o cólon.

Mas talvez estejamos repetindo algumas colonoscopias cedo demais

E aqui chegamos ao estudo mais interessante desta discussão. Durante anos, pacientes com adenomas considerados de maior risco — pelo menos um adenoma ≥ 10 mm, displasia de alto grau, componente viloso ou 3 a 10 adenomas — eram normalmente chamados de volta após 3 anos. O estudo EPoS, publicado em setembro de 2026 no New England Journal of Medicine, colocou essa regra à prova de maneira randomizada.

Foram 10.799 pacientes. Metade iniciou vigilância depois de três anos; a outra metade, apenas depois de cinco. A incidência acumulada de câncer colorretal aos cinco anos foi de 0,82% no grupo acompanhado mais frequentemente e 0,77% no grupo cuja primeira nova colonoscopia ocorreu aos cinco anos. A estratégia de cinco anos atingiu o critério estatístico de não inferioridade. Também não apareceu diferença importante no estágio dos cânceres diagnosticados. É um resultado provocativo.

Ele não significa que devemos simplesmente transformar todos os intervalos de três anos em cinco amanhã. Essa é uma análise interina de um estudo desenhado para avaliar dez anos de acompanhamento, e as recomendações atuais ainda estabelecem três anos para vários desses achados. Mas ele questiona uma ideia profundamente intuitiva na medicina: a de que, se um exame faz bem, fazê-lo mais vezes necessariamente fará ainda melhor. Talvez não.

O editorial que acompanhou o trabalho no próprio NEJM resumiu essa provocação no título: “When More Is Not Better”. As recomendações de três anos haviam sido construídas principalmente sobre estudos observacionais e ensaios menores; agora temos evidência randomizada sugerindo que, depois de uma colonoscopia inicial realmente boa e uma polipectomia completa, alguns pacientes podem seguramente ganhar mais tempo antes do próximo procedimento.

O objetivo não é fazer o máximo de colonoscopias possível

É fazer as colonoscopias necessárias, bem-feitas e na hora certa.

Repetir cedo demais traz custo, preparo intestinal, sedação, ausência ao trabalho e um pequeno risco de complicações, além de consumir capacidade do sistema que poderia ser utilizada para rastrear alguém que nunca fez exame. Esperar demais quando existe risco elevado também é errado. É exatamente por isso que existem intervalos diferentes.

E vale lembrar que as próprias diretrizes não são idênticas. Uma revisão comparando recomendações americanas, europeias, britânicas, japonesas e coreanas mostrou diferenças especialmente grandes para pacientes com poucos adenomas pequenos. Nos Estados Unidos, por exemplo, 1 ou 2 adenomas pequenos levam a 7–10 anos; algumas diretrizes europeias simplesmente devolvem esse paciente ao programa populacional de rastreamento.

A ciência está, portanto, caminhando no sentido de personalizar melhor e talvez fazer menos colonoscopias desnecessárias, sem perder a proteção contra o câncer. Mas isso só funciona se a primeira colonoscopia tiver sido bem-feita. Porque quanto melhor enxergamos, retiramos e documentamos hoje, mais seguros podemos estar para esperar amanhã.

Então chegamos a um ponto confortável: fiz uma colonoscopia de qualidade. Os pólipos foram retirados. Recebi a patologia. Sei quando preciso repetir. Excelente. Mas e se, em vez de um pólipo pré-canceroso, a patologia disser que já existe câncer?

Nem todo câncer colorretal significa automaticamente cirurgia grande, quimioterapia e radioterapia. Alguns tumores muito precoces podem ser tratados pela própria endoscopia; outros precisam de cirurgia; e a localização e o estágio mudam completamente a estratégia.

Esse é o assunto do próximo e último texto desta série.

Sugestões de consulta

  • Gupta S, Lieberman D, Anderson JC, et al. Recommendations for follow-up after colonoscopy and polypectomy: a consensus update by the US Multi-Society Task Force on Colorectal Cancer. Gastrointest Endosc. 2020;91(3):463-85.e5.
  • Jung YS. Summary and comparison of recently updated post-polypectomy surveillance guidelines. Intest Res. 2023;21(4):443-51.
  • Jover R, Bretthauer M, Cubiella J, et al.; EPoS Study Group. Colonoscopy Intervals and Colorectal Cancer Incidence after Adenoma Removal. N Engl J Med. 2026;395:1051-61.
  • Shaukat A, Levin TR. When More Is Not Better — Colonoscopy Surveillance after High-Risk Adenomas. N Engl J Med. 2026;395:1123-4.
  • Dekker E, Jover R, Ijspeert J, et al. Colorectal Cancer Risk among Patients with Serrated Polyps. N Engl J Med. 2026;395:1134-5.
  • Kuga R, Facanali Junior MR, Artifon ELA. Quality indicators in colonoscopy: observational study in a supplementary health system. Acta Cir Bras. 2023;37(11):e371106.
  • Rex DK, Anderson JC, Butterly LF, et al. Quality Indicators for Colonoscopy. Gastrointest Endosc. 2024;100(3):352-81.
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Jonathan Soldera

Médico gastroenterologista e colunista do Portal Mais Saúde.

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