O pâncreas também pode engordar: esse pode ser um importante alerta para a saúde
Muito além da digestão, o acúmulo de gordura no pâncreas está associado a maior risco de diabetes tipo 2, pancreatite, complicações após cirurgias e pode representar um novo marcador de risco para diversas doenças pancreáticas
Durante muitos anos, a gordura acumulada no pâncreas foi encarada apenas como um achado ocasional em exames de imagem, sem grande relevância clínica. Esse cenário mudou rapidamente. Hoje, pesquisadores de diferentes países consideram a esteatose pancreática, também conhecida como doença do pâncreas gorduroso, uma das áreas mais promissoras da pesquisa em metabolismo e gastroenterologia. Embora ainda existam perguntas importantes sem resposta, cresce o número de evidências mostrando que esse acúmulo de gordura pode comprometer o funcionamento do órgão e estar associado ao desenvolvimento de diversas doenças.
O pâncreas exerce uma dupla função essencial para o organismo. Ao mesmo tempo em que produz enzimas responsáveis pela digestão dos alimentos, também fabrica hormônios, como a insulina e o glucagon, fundamentais para o controle da glicose no sangue. Quando a gordura infiltra esse tecido, parte das células saudáveis passa a ser substituída por células adiposas, alterando o ambiente do órgão e favorecendo processos inflamatórios que podem prejudicar tanto sua função digestiva quanto sua função hormonal.
Entre as associações mais consistentes encontradas pela literatura científica está o aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2. Estudos mostram que indivíduos com maior infiltração gordurosa pancreática apresentam maior probabilidade de desenvolver alterações na produção e na secreção de insulina, além de maior resistência à ação desse hormônio. Ainda não está completamente esclarecido se a gordura é uma causa direta dessas alterações ou se representa um marcador de um metabolismo já comprometido, mas sua presença passou a ser considerada um sinal de alerta que merece atenção.
As pesquisas também demonstram uma relação importante entre esteatose pancreática e pancreatite. O excesso de gordura parece tornar o órgão mais vulnerável ao processo inflamatório e está associado tanto à pancreatite aguda quanto às formas crônicas da doença. Em pacientes que já apresentam pancreatite, a infiltração gordurosa também pode contribuir para pior evolução clínica e maior risco de complicações ao longo do tempo.
outro aspecto que ganhou destaque nos últimos anos diz respeito às cirurgias pancreáticas. Um pâncreas infiltrado por gordura apresenta textura mais frágil e delicada, aumentando a chance de desenvolver fístula pancreática após procedimentos cirúrgicos. Também existem evidências de maior risco de pancreatite após procedimentos endoscópicos, especialmente após a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, conhecida pela sigla CPRE, exame utilizado para diagnóstico e tratamento de algumas doenças das vias biliares e do próprio pâncreas.
Talvez a associação que mais desperte interesse seja a possível relação entre esteatose pancreática e câncer de pâncreas. Diversos estudos observacionais sugerem que o acúmulo de gordura pode favorecer um ambiente inflamatório persistente e alterações celulares potencialmente relacionadas ao desenvolvimento de tumores. Entretanto, é importante destacar que as evidências atuais ainda não permitem afirmar que a gordura no pâncreas cause câncer. Até o momento, a relação é considerada uma associação, e estudos prospectivos serão fundamentais para esclarecer se existe realmente uma relação causal.
Diferente de muitos fatores de risco que não podem ser modificados, a gordura no pâncreas parece ser, ao menos em parte, reversível. Perda de peso quando indicada, alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle adequado do diabetes, redução do consumo de álcool e abandono do tabagismo continuam sendo as principais estratégias para reduzir a infiltração gordurosa e preservar a saúde pancreática. Assim como aconteceu com a esteatose hepática, é provável que a esteatose pancreática deixe de ser vista apenas como um achado radiológico e passe a ocupar um papel cada vez mais importante na prevenção de doenças metabólicas e pancreáticas.
Mensagem prática
Encontrar gordura no pâncreas durante um exame de imagem não significa que a pessoa desenvolverá alguma doença. No entanto, esse achado deve servir como um alerta para uma avaliação clínica mais ampla. Em muitos casos, mudanças no estilo de vida e tratamento adequado dos fatores de risco podem contribuir para preservar a função pancreática e reduzir a probabilidade de complicações futuras.
Referência
- Petrov MS, Yamazaki H, Li Q, et al. Conceptual framework and expert guidance on intrapancreatic fat deposition: the Melbourne consensus. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology. 2026.

