Emagrecer não é apenas perder peso: musculação ajuda a preservar a massa magra
Uma revisão de 25 estudos mostra que o exercício resistido durante a perda de peso pode mudar a qualidade do emagrecimento: mais gordura perdida, maior preservação da massa livre de gordura e mais força, mesmo quando a balança praticamente não mostra diferença.
Quando alguém inicia um tratamento para perder peso, a balança costuma ocupar o centro das atenções. Mas duas pessoas podem perder a mesma quantidade de quilos e terminar o processo com resultados bastante diferentes.
A razão é simples: peso não é sinônimo de gordura.
Ao emagrecer, o organismo não utiliza exclusivamente suas reservas de gordura. Uma parte do peso perdido pode corresponder à massa livre de gordura, que inclui músculos, órgãos, ossos, água e outros tecidos. O músculo merece atenção especial porque está diretamente relacionado à força, capacidade funcional, autonomia e saúde ao longo da vida.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no BMJ Open Sport & Exercise Medicine ajuda a mostrar por que o exercício resistido, como a musculação, deve fazer parte das estratégias de emagrecimento. Os pesquisadores analisaram 25 estudos clínicos randomizados, envolvendo 1.608 adultos com sobrepeso ou obesidade, comparando programas de dieta para perda de peso associados ao exercício resistido com programas baseados apenas na dieta.
A balança contou apenas uma parte da história
O primeiro resultado pode parecer surpreendente. Acrescentar musculação à dieta não produziu uma perda de peso significativamente maior. A diferença média entre os grupos foi de apenas 0,32 kg, sem significância estatística.
Isso não significa que o exercício não funcionou. Mostra, na realidade, uma das limitações de avaliar o emagrecimento exclusivamente pela balança.
Quando os pesquisadores analisaram do que era composto o peso perdido, apareceram diferenças importantes.
Quem realizou exercício resistido apresentou maior preservação da massa livre de gordura. Em média, o grupo que treinou preservou aproximadamente 0,74 kg a mais de massa livre de gordura em comparação com quem realizou apenas dieta.
Ao mesmo tempo, o treinamento resistido esteve associado a uma redução adicional de aproximadamente 0,73 kg de gordura corporal.
Assim, o peso final poderia ser semelhante, mas a composição corporal não necessariamente era.
Em outras palavras, a musculação não fez a balança cair mais. Ela ajudou a melhorar a qualidade do peso perdido.
E existe algo que a balança jamais consegue medir: força
Outro resultado importante foi a melhora da força muscular entre aqueles que fizeram exercício resistido durante o emagrecimento.
Força e quantidade de músculo, entretanto, não são exatamente a mesma coisa. É possível tornar-se mais forte sem aumentar proporcionalmente a massa muscular, porque o treinamento também produz adaptações neuromusculares, melhorando a capacidade de utilizar o músculo existente.
Esse ponto é especialmente importante porque o objetivo do tratamento da obesidade não deveria ser simplesmente produzir um número menor na balança. O objetivo é reduzir o excesso de gordura preservando, tanto quanto possível, tecidos e funções importantes para a saúde.
Preservar não significa impedir completamente a perda
Existe uma diferença importante entre dizer que a musculação “preserva massa magra” e afirmar que ela impede qualquer perda muscular durante o emagrecimento.
O estudo não demonstrou que seja possível eliminar completamente essa perda.
A conclusão mais adequada é que o treinamento resistido atenua a redução de massa livre de gordura que pode acompanhar a perda de peso.
Também é preciso considerar que massa livre de gordura não é exatamente sinônimo de músculo. Essa medida inclui água, órgãos, ossos e outros tecidos. Portanto, embora os resultados sejam muito relevantes para a discussão sobre saúde muscular, eles não permitem afirmar que cada grama preservada corresponda exclusivamente a músculo.
O estudo também tem limitações
Os trabalhos incluídos utilizaram diferentes dietas e diferentes protocolos de treinamento. Mais da metade avaliou exclusivamente mulheres, muitos programas de exercício foram supervisionados em ambientes especializados e houve diferenças importantes entre os estudos.
Além disso, os dados disponíveis não demonstraram benefícios adicionais consistentes do treinamento resistido sobre glicemia, colesterol ou pressão arterial nesse contexto específico.
Outro ponto merece atenção: essa revisão avaliou pessoas submetidas a intervenções alimentares para perda de peso. Portanto, seus números não podem ser automaticamente transferidos para indivíduos que estão emagrecendo com medicamentos antiobesidade.
Essa é uma distinção especialmente importante em um momento em que tratamentos farmacológicos capazes de produzir perdas expressivas de peso estão sendo cada vez mais utilizados.
Precisamos mudar a pergunta
Talvez, durante um tratamento para obesidade, a pergunta não devesse ser apenas:
“Quantos quilos você perdeu?”
Mas também:
“O que você perdeu junto com esses quilos?”
A balança mede peso corporal. Ela não distingue gordura de massa magra, não mede força e tampouco revela capacidade funcional.
O tratamento contemporâneo da obesidade precisa olhar além do número mostrado pela balança. Alimentação adequada, ingestão proteica individualizada, atividade física e especialmente exercício resistido são componentes importantes para que a redução de peso seja acompanhada pela maior preservação possível da saúde muscular.
Porque perder peso importa. Mas importa também a qualidade desse emagrecimento e o corpo funcional que permanece depois dele.
Referência
- Binmahfoz A, Dighriri A, Gray C, et al. Effect of resistance exercise on body composition, muscle strength and cardiometabolic health during dietary weight loss in people living with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open Sport & Exercise Medicine. 2025;11(3):e002363.

