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Efeito sanfona faz mal? Novo artigo da Lancet desafia um dos maiores mitos da obesidade

Especialistas revisaram criticamente as evidências disponíveis e concluíram que, embora recuperar peso após emagrecer seja comum, não há provas de que o efeito sanfona, por si só, seja responsável pelos danos metabólicos frequentemente atribuídos a ele. Os benefícios da perda de peso continuam superando os potenciais riscos da oscilação de peso

Emagrecer, recuperar parte do peso e tentar novamente. Essa trajetória faz parte da vida de milhões de pessoas. Estima-se que aproximadamente metade da população mundial esteja tentando perder peso em algum momento, e a recuperação parcial ou total do peso perdido continua sendo uma das maiores dificuldades no tratamento da obesidade.

Esse padrão, conhecido como “efeito sanfona”, ou weight cycling, há décadas desperta preocupação. Muitos especialistas acreditavam que repetir ciclos de emagrecimento e ganho de peso poderia reduzir a massa muscular, diminuir o metabolismo, aumentar proporcionalmente a gordura corporal e favorecer complicações como resistência à insulina e intolerância à glicose.

Entretanto, um novo artigo publicado na The Lancet Diabetes & Endocrinology apresenta uma análise crítica das evidências disponíveis e chega a uma conclusão importante: os dados atuais não demonstram que o efeito sanfona, isoladamente, cause danos clínicos em pessoas com obesidade.

Segundo os autores, grande parte dos estudos que associaram a oscilação de peso a piores desfechos foi baseada em pesquisas observacionais, nas quais diversos fatores podem influenciar os resultados. Envelhecimento, perda de peso involuntária, início precoce da obesidade, maior tempo de exposição ao excesso de peso e o fenômeno conhecido como causalidade reversa podem explicar parte dessas associações.

Em outras palavras, pessoas com doença mais grave podem apresentar maior dificuldade para manter o peso perdido, criando a impressão de que o efeito sanfona seria a causa dos problemas, quando, na realidade, ele pode ser apenas um marcador de uma condição clínica mais complexa.

O artigo também traz uma mensagem particularmente relevante para a era dos medicamentos como semaglutida, tirzepatida e outras terapias baseadas em incretinas. A recuperação de peso após a interrupção do tratamento é frequente e reforça que a obesidade deve ser compreendida como uma doença crônica, que geralmente necessita de estratégias contínuas de manutenção.

Os autores destacam que, mesmo quando ocorre recuperação parcial do peso, os benefícios obtidos durante o período de emagrecimento frequentemente permanecem significativos. Melhoras em parâmetros metabólicos, saúde cardiovascular e qualidade de vida tendem a superar os potenciais riscos associados à oscilação do peso corporal.

Isso não significa que recuperar peso seja desejável. O objetivo continua sendo manter a perda ponderal a longo prazo. A principal mudança proposta pelo artigo é outra: abandonar a ideia de que tentar emagrecer repetidamente faz mais mal do que permanecer com obesidade sem tratamento.

O que isso significa na prática?

Se uma pessoa recuperou peso após uma dieta ou após interromper um tratamento para obesidade, isso não significa que todo o esforço foi prejudicial. A evidência científica atual sugere que vale a pena continuar tratando a obesidade, buscando estratégias sustentáveis de longo prazo que combinem alimentação adequada, atividade física, mudanças comportamentais e, quando indicados, medicamentos ou cirurgia bariátrica. O importante não é desistir após uma recaída, mas compreender que a obesidade é uma doença crônica e que recaídas fazem parte da sua história natural.

Limitações

Este artigo é um personal view, modalidade de publicação que apresenta uma análise crítica da literatura baseada na interpretação de especialistas. Portanto, não se trata de um estudo clínico original nem de uma revisão sistemática com metanálise. As conclusões refletem a avaliação crítica das evidências atualmente disponíveis e apontam para a necessidade de novos estudos prospectivos capazes de esclarecer definitivamente os efeitos do weight cycling sobre a saúde.

Referências

Magkos F, Stefan N. Is weight cycling clinically harmful? Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(7):594-607.

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Clayton Macedo

Médico endocrinologista e curador do Portal Mais Saúde.

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