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Série Câncer Colorretal – artigo 2

Câncer colorretal: por que fazer um exame quando você não sente nada?

A colonoscopia não procura apenas câncer. Ela encontra e remove as lesões que poderiam se transformar nele. E, quando o acesso ao exame é difícil, o FIT pode ser uma excelente porta de entrada para o rastreamento

No texto anterior, falamos sobre alimentação e câncer colorretal. O consumo de ultraprocessados aumentou de maneira importante nas últimas décadas, especialmente em países como os Estados Unidos, justamente enquanto observamos um fenômeno preocupante: o aumento do câncer colorretal em adultos jovens.

As duas coisas não devem ser transformadas em uma relação simples de causa e efeito. Mas os sinais começam a se encontrar. Em uma grande coorte americana, mulheres com maior consumo de ultraprocessados apresentaram 45% mais chance de desenvolver adenomas convencionais antes dos 50 anos. Adenomas são justamente algumas das lesões que podem anteceder o câncer.

No Brasil também existem sinais de alerta. Um estudo realizado em um grande centro oncológico encontrou um aumento relativo de 35,3% nos casos diagnosticados abaixo dos 50 anos entre 2011 e 2016. Mais preocupante: muitos desses pacientes jovens chegaram ao diagnóstico já nos estágios III ou IV. É um estudo de um único centro e não representa sozinho todo o país, mas reforça algo que vemos na prática: idade jovem não exclui câncer colorretal.

E foi justamente a mudança desse perfil que ajudou a transformar o rastreamento em outros países.

Quando uma colonoscopia na televisão mudou uma conversa inteira

Em 1998, a jornalista americana Katie Couric perdeu o marido, Jay Monahan, para um câncer colorretal, aos 42 anos. Dois anos depois, ela tomou uma decisão incomum para a época: realizou uma colonoscopia diante das câmeras do programa Today, transformando um exame que muitas pessoas evitavam por vergonha ou medo em assunto de televisão nacional. Funcionou.

Um estudo publicado posteriormente mostrou aumento significativo na realização de colonoscopias após a campanha, persistindo por meses. O fenômeno ganhou até um nome: “Katie Couric effect”.

Em 2019, Will Smith fez algo parecido de uma forma mais contemporânea: gravou um vlog de sua primeira colonoscopia. Ele entrou no exame fazendo piadas e saiu com uma informação que não esperava. Durante o procedimento, foi encontrado e retirado um pólipo pré-canceroso. E esse talvez seja o melhor exemplo para explicar por que rastreamento funciona.

Will Smith não fez uma colonoscopia porque estava com câncer. Ele fez porque ainda não sabia se havia algo lá.

A colonoscopia tem uma característica diferente de muitos exames de câncer

Uma mamografia pode encontrar um câncer de mama pequeno. Uma tomografia pode encontrar um tumor pulmonar precoce.

A colonoscopia também pode encontrar um câncer colorretal em estágio inicial — mas tem uma vantagem adicional: durante o mesmo exame, podemos retirar um pólipo antes que ele se transforme em câncer.

Grande parte dos cânceres colorretais se desenvolve lentamente a partir de lesões precursoras, principalmente adenomas e algumas lesões serrilhadas. Estudos brasileiros confirmam que pólipos e adenomas são encontrados com frequência durante colonoscopias de rastreamento e que sua detecção depende, inclusive, da qualidade com que o exame é realizado.

Portanto, o objetivo ideal não é encontrar um câncer pequeno. É retirar a lesão que nunca terá a oportunidade de virar câncer.

Por que começávamos aos 50 e agora falamos tanto em 45?

Durante décadas, os 50 anos funcionaram quase como uma fronteira para o rastreamento da população de risco habitual. 

Nos Estados Unidos, isso mudou em 2021. Diante do aumento do câncer colorretal em adultos mais jovens e de modelos mostrando benefício em começar antes, a USPSTF reduziu a idade recomendada para início do rastreamento de 50 para 45 anos. No Brasil, a situação é um pouco mais complicada — e vale esclarecer isso.

A Sociedade Brasileira de Coloproctologia recomenda que a discussão sobre rastreamento comece aos 45 anos, idade que também vem sendo utilizada em muitos serviços e na prática especializada. Já a nova estratégia nacional incorporada ao SUS em agosto de 2026 estabeleceu, para rastreamento organizado da população de risco habitual, o FIT a cada dois anos entre 50 e 75 anos. Portanto, hoje convivemos com recomendações diferentes dependendo se estamos falando de uma decisão individual com o paciente ou de uma política pública populacional.

Isso também expõe um problema brasileiro: por muitos anos não tivemos um programa nacional organizado e uniforme de rastreamento, e o acesso à colonoscopia continua variando bastante entre regiões e serviços. Estudos brasileiros que mapearam iniciativas locais encontraram bons resultados, mas justamente chamaram atenção para essa fragmentação.

Não conseguiu fazer colonoscopia? Existe o FIT

Essa é uma mensagem particularmente importante. 

Não ter acesso imediato à colonoscopia não significa que você não possa ser rastreado. O FIT — Fecal Immunochemical Test, ou teste imunoquímico fecal — procura pequenas quantidades de hemoglobina humana nas fezes.

O paciente recebe um pequeno kit, coleta uma amostra em casa e a encaminha ao laboratório. Diferentemente dos antigos testes baseados em guaiaco, o FIT é específico para sangue humano e, em geral, não exige aquelas dietas complicadas antes da coleta. A nova diretriz brasileira escolheu justamente o FIT como estratégia inicial por ser simples, não invasivo, barato e apresentar boa adesão.

Se o FIT for negativo, ele precisa ser repetido periodicamente — no programa brasileiro, a proposta atual é a cada dois anos. Se for positivo, isso não significa que a pessoa tenha câncer. Significa que existe sangue microscópico nas fezes e que precisamos descobrir de onde ele veio. O próximo passo é a colonoscopia. E temos ótima experiência brasileira mostrando que essa estratégia funciona.

No Hospital de Amor de Barretos, mais de 6 mil pessoas realizaram adequadamente o FIT. Entre aquelas com teste positivo que fizeram colonoscopia, o exame encontrou adenomas em uma proporção importante e identificou cânceres em fases mais precoces do que aqueles habitualmente diagnosticados por sintomas.

Em outro programa realizado em uma comunidade de baixa renda em São Paulo, quase 10 mil pessoas fizeram FIT. Entre os participantes com FIT positivo que realizaram colonoscopia, 63,2% tinham adenomas, 31,4% adenomas avançados e 5,9% câncer colorretal. Quase metade dos cânceres encontrados pôde ser tratada endoscopicamente com intenção curativa.

Ou seja: um pequeno teste feito em casa conseguiu selecionar quem realmente precisava chegar mais rápido à colonoscopia.

E quem tem câncer colorretal na família?

Aqui a conversa começa mais cedo.

Quando existe câncer colorretal ou adenoma avançado em familiar de primeiro grau — pai, mãe, irmão, irmã ou filho —, especialmente quando o diagnóstico ocorreu antes dos 60 anos, recomendações internacionais orientam iniciar a colonoscopia aos 40 anos ou 10 anos antes da idade em que o familiar mais jovem recebeu o diagnóstico, o que ocorrer primeiro.

Então, se seu pai teve câncer de intestino aos 45 anos, não faz sentido esperar até os 45 para começar essa conversa. Nesse exemplo, o rastreamento pode começar aos 35.

E existem situações — síndrome de Lynch, polipose adenomatosa familiar e algumas doenças inflamatórias intestinais — em que a estratégia é completamente diferente e precisa ser individualizada.

Talvez a melhor colonoscopia seja aquela que encontra apenas um pólipo

É comum o paciente acordar da sedação e perguntar: “Doutor, deu alguma coisa?”. Quando respondo que encontrei e retirei um pólipo, isso pode soar como uma notícia ruim. Mas, dentro de um programa de prevenção, muitas vezes é exatamente o contrário. A colonoscopia foi feita para encontrá-lo.

Porque o objetivo principal do rastreamento não é esperar o câncer aparecer para diagnosticá-lo cedo. É interromper o caminho antes que ele chegue lá.

Converse com seu gastroenterologista sobre quando começar seu rastreamento. Aos 45? Aos 50? Antes disso por causa da sua história familiar? Colonoscopia ou FIT? A resposta depende do seu risco, de onde você vive e do acesso disponível. Mas existe uma resposta que não deveria depender disso: não esperar sintomas para começar a pensar em prevenção.

E existe uma última questão importante. Fazer uma colonoscopia, por si só, não garante a mesma proteção em todos os lugares. Ela precisa ser colonoscopia bem-feita.

Quanto tempo o médico leva examinando o cólon? Ele chega até o ceco? O preparo estava adequado? Quantos adenomas ele costuma encontrar? E, afinal, o que significa quando o laudo diz “adenoma”, “pólipo serrilhado” ou “displasia”?

Esse é assunto para o próximo artigo dessa série. Fazer uma colonoscopia pode não ser o suficiente – fazer uma boa colonoscopia é o que realmente faz diferença.

Sugestões de consulta

  • Burki TK. USPSTF: colorectal cancer screening in the US from 45 years. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2021;6(7):530. 
  • Campos FG. Colorectal cancer in young adults: A difficult challenge. World J Gastroenterol. 2017;23(28):5041-4. 
  • Christiano AB, Bonilha DRQM, Marchiori Junior MA, et al. Are quality indicators important in colonoscopies? Analysis of 3,076 exams in a private tertiary service in Southeastern Brazil. Arq Bras Cir Dig. 2025;37:e1864. 
  • Cram P, Fendrick AM, Inadomi J, et al. The impact of a celebrity promotional campaign on the use of colon cancer screening: the Katie Couric effect. Arch Intern Med. 2003;163(13):1601-5. 
  • Guimarães DP, Mantuan LA, Oliveira MA, et al. The Performance of Colorectal Cancer Screening in Brazil: The First Two Years of the Implementation Program in Barretos Cancer Hospital. Cancer Prev Res. 2021;14(2):241-52. 
  • Kupper BEC, Ferreira FO, Nakagawa WT, et al. Colorectal cancer: association between sociodemographic variables and adherence to cancer screening. Arq Bras Cir Dig. 2023;36:e1729. 
  • Moura DTH, Baroni LM, Bestetti AM, et al. Evaluation of quality indicators of screening colonoscopy performed in a private quarternary hospital in Brazil. Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1815. 
  • Ribeiro U Jr, Safatle-Ribeiro AV, Sorbello M, et al. Implementation of an organized colorectal cancer screening program through quantitative fecal immunochemical test followed by colonoscopy in an urban low-income community. Clinics. 2023;78:100278. 
  • Silva ACB, Vicentini MFB, Mendoza EZ, et al. Young-age onset colorectal cancer in Brazil: Analysis of incidence, clinical features, and outcomes in a tertiary cancer center. Curr Probl Cancer. 2019;43(5):477-86. 
  • Sorbello MP, Ribeiro Júnior U, Eluf-Neto J, et al. Feasibility and Colonoscopy Yield Using the Fecal Immunochemical Test (FIT)-Based Colorectal Cancer Screening in a Latin America Country. Clin Gastroenterol Hepatol. 2024;22(8):1719-27.e1. 
  • Toledo CM, Almeida LMPR, Averbach M, et al. Analysis of the tracking initiatives of colorectal cancer in Brazil. Arq Gastroenterol. 2023;60(4):450-62. 
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Jonathan Soldera

Médico gastroenterologista e colunista do Portal Mais Saúde.

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