Natural não é sinônimo de inofensivo: quando ervas, suplementos e hormônios danificam o fígado
A lesão hepática relacionada a produtos naturais pode ir de uma alteração silenciosa nos exames até insuficiência hepática grave.
E o uso estético de esteroides anabolizantes acrescenta outro risco que não deveria ser tratado como mero detalhe ou raridade
Quando alguém me diz que está tomando um suplemento, uma das frases que mais escuto é: “Mas doutor, é natural. Não tem como fazer mal.”
O problema é que o fígado não sabe se aquilo veio de uma farmácia, de uma loja de produtos naturais ou da internet. Ele precisa metabolizar o que recebe.
E algumas dessas substâncias podem acabar danificando o órgão.
Esse quadro é conhecido como lesão hepática induzida por ervas (HILI, em inglês). Ele pode aparecer apenas como uma elevação inesperada das enzimas do fígado, mas também pode provocar náusea, dor abdominal, coceira, urina escura e icterícia. Nos casos mais graves, pode evoluir para insuficiência hepática.
Em uma revisão sistemática e meta-análise da qual fui coautor, avaliamos 446 publicações, reunindo 936 casos, e encontramos 79 diferentes ervas ou produtos associados à lesão hepática. O padrão mais frequente foi de lesão hepatocelular, ou seja, dano direto às células do fígado.
Entre os produtos mais frequentemente descritos estavam He-Shou-Wu (fo-ti), extrato concentrado de chá verde, kava-kava, celidônia-maior, germander, skullcap ou Scutellaria, kratom, Gynura segetum, Garcinia cambogia, ma huang/efedra, chaparral, sene e aloe vera, além de misturas e produtos comerciais como Herbalife, Hydroxycut e OxyElite. A revisão também encontrou relatos envolvendo cúrcuma, ashwagandha, valeriana, black cohosh, noni, confrei, equinácea, red yeast rice e erva-de-são-joão, entre muitos outros.
Isso não significa que toda pessoa que tomar chá verde, cúrcuma ou qualquer um desses produtos terá hepatite. Esse é um ponto importante. Os dados vieram principalmente de relatos de casos e séries de casos e, portanto, não permitem calcular o risco individual de quem usa cada suplemento. Alguns desses casos são dose dependente – sabe-se que o extrato de chá verde e a cúrcuma em cápsulas, cujas doses são maiores, têm maior chance de causar lesão no fígado.
Mas permitem dizer uma coisa com segurança: “natural” não significa “inócuo” ou “incapaz de causar toxicidade”.
Entre os casos publicados, 82,8% tiveram recuperação completa após a retirada do produto. Entretanto, 6,6% necessitaram de transplante hepático e 10,4% morreram. Esses números provavelmente superestimam a gravidade para o usuário comum, porque os casos mais graves têm muito mais chance de chegar à literatura médica. Ainda assim, deixam claro que HILI não é uma curiosidade inocente. Ela pode ameaçar sua vida e deixá-lo severamente doente.
Um exemplo interessante: a scutellaria
Em outro editorial de minha autoria, discuti especificamente a lesão hepática associada ao skullcap, ou scutellaria, uma erva utilizada em alguns suplementos para ansiedade, estresse e insônia.
Os casos costumavam aparecer entre uma semana e três meses após o início do uso e apresentavam predominantemente um padrão de lesão hepatocelular. Um dos relatos chamou particularmente atenção porque a apresentação evoluiu com características semelhantes às de uma hepatite autoimune. Na maioria dos pacientes, suspender a erva foi suficiente para permitir recuperação, mas também foram descritos casos graves.
E existe ainda um problema prático: muitas pessoas não contam ao médico que usam esses produtos porque simplesmente não os consideram medicamentos. Isso transforma a investigação em um pequeno trabalho de detetive.
E os hormônios usados para estética?
Eles não fizeram parte dessas duas pesquisas, mas seria difícil falar hoje em dia sobre suplementos e fígado hoje sem colocá-los na mesma conversa.
Esteroides anabolizantes androgênicos utilizados para ganho de massa muscular ou finalidade estética podem produzir uma forma bastante característica de lesão hepática, especialmente algumas preparações sintéticas orais. Podem causar colestase intensa e prolongada, alterações vasculares como peliose hepática e, com exposição prolongada, estão associados ao desenvolvimento de adenomas hepáticos e carcinoma hepatocelular. Esses tumores já foram descritos inclusive em pessoas sem cirrose prévia quando usando anabolizantes. Eu pessoalmente já vi casos de nódulos hepáticos e câncer de fígado associado ao uso de esteroides anabolizantes.
Isso também precisa ser colocado em perspectiva. Não é correto transformar essa informação na frase simplista de que “qualquer testosterona causa câncer”. Composto, dose, via de administração, duração do uso e indicação importam. O problema é particularmente preocupante quando falamos de ciclos estéticos, doses suprafisiológicas, combinações de vários produtos e substâncias adquiridas sem controle adequado de composição. Alguns suplementos comercializados para aumento de massa muscular inclusive já foram encontrados contendo esteroides anabolizantes não declarados no rótulo. Às vezes, médicos de ética questionável prescrevem hormônios com fim estético sem nem explicar ao paciente que estão prescrevendo, quiçá explicar os riscos.
Então, o que fazer com essa informação?
Talvez a principal mudança seja simples: quando perguntamos a um paciente quais medicamentos ele usa, precisamos perguntar também sobre chás, fitoterápicos, suplementos, produtos para emagrecimento, pré-treinos e hormônios.
E o paciente precisa entender que contar isso ao médico não é receber uma bronca. É fornecer uma informação clínica importante.
A maioria das lesões hepáticas por suplementos melhora quando identificamos o agente e o retiramos a tempo. O problema começa quando uma substância aparentemente inofensiva continua sendo utilizada por semanas ou meses porque ninguém pensou em colocá-la na lista de possíveis causas.
O rótulo pode dizer “natural”. Mas o fígado não faz essa distinção. Cuide bem dele. Você só tem um.
Sugestões de consulta
- Ballotin VR, Bigarella LG, Brandão ABM, et al. Herb-induced liver injury: Systematic review and meta-analysis. World J Clin Cases. 2021;9(20):5490-513.
- Soldera J. Insights into skullcap herb-induced liver injury. World J Hepatol. 2024;16(2):120-22.

