Testosterona virou tendência. Mas quem realmente precisa dela?
Enquanto cresce a pressão para ampliar o uso da testosterona, especialistas alertam que a indicação continua restrita a situações bem definidas e que ainda há importantes incertezas sobre seus benefícios e riscos
A testosterona voltou ao centro das discussões médicas. Nos Estados Unidos, especialistas defendem ampliar o acesso ao tratamento, enquanto clínicas, redes sociais e influenciadores impulsionam a ideia de que o hormônio poderia melhorar energia, disposição, composição corporal e até retardar o envelhecimento. Mas a ciência mostra um cenário muito mais complexo do que o entusiasmo das redes sociais sugere.
Hoje, a terapia de reposição é indicada principalmente para homens com hipogonadismo, condição em que existe deficiência comprovada de testosterona causada por doenças dos testículos, da hipófise ou do hipotálamo. Nesses casos, quando há sintomas compatíveis e confirmação laboratorial, o tratamento pode melhorar a libido, função sexual, anemia, densidade mineral óssea e aumentar discretamente a massa e a força muscular.
O debate começa quando se propõe expandir essa indicação para homens com níveis considerados baixos apenas pelo envelhecimento, obesidade ou outros fatores, ou mesmo para indivíduos sem sintomas. Alguns especialistas defendem essa ampliação. Outros argumentam que, em muitos casos, mudanças no estilo de vida, perda de peso, melhora do sono e tratamento de doenças associadas podem restaurar naturalmente a produção hormonal, evitando uma terapia de uso prolongado.
A segurança também permanece em discussão. O estudo TRAVERSE mostrou que homens com deficiência comprovada de testosterona e alto risco cardiovascular não apresentaram aumento de infarto ou AVC quando tratados para restaurar níveis fisiológicos. Esses resultados levaram à retirada do antigo alerta cardiovascular presente nos rótulos dos medicamentos nos Estados Unidos. Entretanto, esses dados não podem ser extrapolados para pessoas sem indicação clínica nem para doses suprafisiológicas utilizadas com objetivos estéticos ou de performance.
Níveis excessivos de testosterona podem provocar infertilidade, redução do volume testicular, diminuição da produção de espermatozoides, cardiomiopatia, alterações psiquiátricas e dependência. Estudos envolvendo usuários de esteroides anabolizantes em doses elevadas demonstram aumento expressivo da mortalidade em relação à população geral.
Outro ponto importante é que muitos benefícios frequentemente divulgados nas redes sociais ainda não foram confirmados por estudos robustos. As evidências sobre melhora de cognição, humor, vitalidade e prevenção de doenças permanecem limitadas ou inconsistentes, e ainda não foi demonstrado que tratar indiscriminadamente homens com testosterona baixa reduza mortalidade ou previna doenças crônicas.
Limitações
Grande parte da controvérsia decorre da escassez de estudos de longo prazo envolvendo homens sem hipogonadismo clássico. Ainda não existe evidência suficiente para recomendar rastreamento universal ou tratamento preventivo da testosterona em indivíduos assintomáticos.
Mensagem prática
Testosterona não é um suplemento nem um tratamento para envelhecimento. É um medicamento indicado para situações clínicas específicas, após avaliação médica criteriosa, confirmação laboratorial e investigação da causa da deficiência hormonal. Em homens com obesidade, sedentarismo, privação de sono e outras doenças metabólicas, a primeira estratégia continua sendo corrigir os fatores que frequentemente reduzem a testosterona de forma reversível.
Referências
- Lenharo M. Testosterone therapy is trending. Who really needs it, and why? Nature. 2026;653:23-25.
- Schweitzer K. Testosterone Therapy: Does New Evidence Warrant Broader Prescribing? JAMA. Published online July 10, 2026.

