Associação Americana de Diabetes muda a forma de diagnosticar a obesidade
Peso e IMC continuam importantes, mas não contam toda a história. Cintura, quantidade e distribuição da gordura e consequências para a saúde passam a fazer parte de uma avaliação mais completa
Durante muito tempo, o diagnóstico da obesidade ficou praticamente dependente de dois números: peso e altura. A partir deles calcula-se o conhecido IMC, o índice de massa corporal.
As novas recomendações de 2026 da Associação Americana de Diabetes propõem algo mais próximo do que acontece no corpo real: não basta saber quanto uma pessoa pesa. É importante saber quanto desse peso é gordura, onde essa gordura está e se ela já está prejudicando a saúde.
O problema é que o IMC não enxerga a composição do corpo. Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo peso e a mesma altura, mas uma ter mais músculos e outra, mais gordura. E, mesmo entre duas pessoas com a mesma quantidade de gordura, aquela que acumula mais gordura na região abdominal pode apresentar maior risco metabólico.
Por isso, uma fita métrica pode acrescentar uma informação que a balança não consegue mostrar.
Além da circunferência da cintura, as novas recomendações valorizam a relação entre cintura e altura. Uma relação igual ou superior a 0,5 indica aumento da gordura abdominal. É uma conta bastante simples: uma pessoa com 1,70 m de altura, por exemplo, atinge essa relação quando sua cintura mede 85 cm.
Nos adultos não asiáticos, o documento considera obesidade quando o IMC é 30 kg/m2 ou mais. Mas há uma novidade importante: uma pessoa com IMC a partir de 25 kg/m2 também pode preencher o critério quando apresenta excesso de gordura abdominal, identificado pela relação cintura/altura ou por valores de circunferência da cintura definidos de acordo com sexo e etnia.
Em algumas situações, porém, nem IMC nem fita métrica são suficientes. Pessoas com muita massa muscular são um bom exemplo. Nesses casos, o documento recomenda métodos que avaliem melhor a composição corporal, como a bioimpedância ou o DEXA, exame que consegue estimar separadamente gordura e massa magra.
Equipamentos mais recentes, como scanners corporais 3D, também podem fornecer medidas detalhadas do formato e das dimensões corporais.
E existe uma mudança ainda mais importante: ter obesidade não significa que todas as pessoas tenham a mesma gravidade da doença.
A avaliação passa a considerar se o excesso de gordura já está associado a problemas de saúde, sintomas físicos, dificuldades psicológicas ou limitações para realizar atividades do cotidiano. Para isso, as recomendações destacam um sistema de estadiamento que vai de 0 a 4.
Isso significa que duas pessoas com IMC 32, por exemplo, não são necessariamente iguais do ponto de vista médico. Uma pode ainda não apresentar complicações importantes. A outra pode ter diabetes, gordura no fígado, dificuldades para caminhar ou outras repercussões relevantes. O número na balança é semelhante; a doença, não.
Também muda a maneira de avaliar o sucesso do tratamento. Emagrecer importa, mas não é o único objetivo. Melhorar o diabetes, reduzir a gordura no fígado, recuperar capacidade física, diminuir sintomas e melhorar a saúde como um todo também são resultados fundamentais.
O documento reforça ainda que a obesidade deve ser acompanhada ao longo da vida. Mesmo quando uma pessoa emagrece e entra em remissão, continua existindo risco de recuperar peso, razão pela qual o acompanhamento não deveria simplesmente terminar quando a balança chega ao número desejado.
A mensagem final é simples: a balança mede peso. Ela não mede, sozinha, obesidade nem a gravidade da doença.
A medicina passa a olhar para o conjunto: peso, altura, cintura, quantidade e distribuição da gordura e, principalmente, as consequências desse excesso de gordura para a saúde.
É uma mudança de pergunta. Em vez de apenas “quanto você pesa?”, passamos a perguntar: “quanto desse peso é gordura, onde ela está e o que ela está fazendo com a sua saúde?”
Referências
- American Diabetes Association Professional Practice Committee for Obesity. Screening, diagnosis, evaluation, and staging of obesity in adults: Standards of Care in Overweight and Obesity—2026. BMJ Open Diabetes Research & Care. 2026;13(Suppl 1):e006247. doi:10.1136/bmjdrc-2026-006247.
- Sun L. ADA releases 2026 standards to guide obesity screening, diagnosis, evaluation, and staging. The Innovation Nutrition. 2026;1(2):100026. doi:10.59717/j.xinn-nutri.2026.100026.

