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Disease mongering: você já caiu na lábia de médicos que inventam doenças?

Entenda o alerta científico sobre o mercado que lucra com a sua saúde

Texto escrito pelo Dr. Clayton Macedo e Dr. Mateus Dornelles Severo e extraído de post da página @drclaytonendocrino, no Instagram

Disease mongering é o termo técnico para “venda de doenças”. Trata-se de uma prática puramente comercial em que o picareta alarga as fronteiras da Medicina para transformar pessoas saudáveis em pacientes lucrativos. O objetivo é patologizar o seu dia a dia:

  • Seu cansaço vira “fadiga adrenal” 
  • Seu envelhecimento vira “necessidade de modulação hormonal”

O roteiro dessa armadilha é sempre o mesmo: na primeira consulta, você recebe uma lista com 60, 80 ou até 100 exames de sangue e saliva. A promessa é de “uma investigação profunda e integrativa que ninguém nunca fez por você”. Soa como um cuidado incrível, mas a literatura médica mostra que isso é uma armadilha estatística.

Os laboratórios definem o que é “normal” com base em 95% da população saudável. Isso significa que 5% das pessoas saudáveis sempre estarão fora do índice por pura flutuação natural do corpo. Cientificamente, se você pede 20 exames para alguém sem sintomas, a chance de achar um falso positivo é de 64%. Se você pede 80 exames, a chance de achar qualquer alteração sem valor clínico é de quase 100%. Pronto: o “problema” foi criado.

Na literatura médica, o que vem a seguir se chama “cascata diagnóstica”. O picareta pega aquela alteração mínima e inventa um diagnóstico que não existe nos consensos científicos. O objetivo é gerar medo. E o medo é o gatilho perfeito para vender a “solução”: soros de imunidade, implantes hormonais manipulados ou protocolos high ticket exclusivos.

Essa prática não é apenas inútil; ela é perigosa. Estudos publicados no JAMA alertam para o risco real do supertratamento. O uso indiscriminado de hormônios ou megadoses de vitaminas pode sobrecarregar seu fígado, rins e desregular o seu metabolismo. Além disso, enquanto você gasta tempo tratando uma doença inventada, uma doença real pode deixar de ser diagnosticada.

A boa prática médica é baseada em evidências. Exames são ferramentas de confirmação, não linhas de pescaria estatística. Um endocrinologista sério não precisa inventar termos comerciais para valorizar a consulta. O bom clínico ouve sua história, conecta os sintomas reais e pede apenas os exames necessários para proteger a sua saúde de forma resolutiva e honesta.

Para quem quiser aprender mais, vale a leitura:

  • Moynihan, R. (PLOS Medicine): demonstra como o mercado cria e vende doenças para medicalizar pessoas saudáveis. 
  • Ganguli, I. (JAMA Network Open): escancara como o excesso de exames desnecessários desencadeia cascatas de tratamentos prejudiciais. 

A verdade médica é pública e está nas maiores diretrizes mundiais. Menos comércio, mais ciência. Você ou alguém que você conhece já saiu de um consultório com uma lista gigante de exames e a sensação de que estava completamente doente?

Referências

  • JAMA Netw Open. 2019 Oct 2;2(10):e1913325.
  • PLoS Med. 2006 Apr;3(4):e191.
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